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Editorial

AS FACES DE SER MULHER

       Ser mulher sempre soou tão difícil. Relógio biológico, carreira, administrar o lar, família, continuar os estudos… Passatempo? O que é isso? Exercício físico? Quando dá. Ou arrumar casa conta? Gastamos tanta energia… Não apenas física, claro. A mente está uma loucura. Como dar conta de tanto e não ficar com a cabeça uma loucura? Queremos dar conta e, às vezes, damos. Nem sempre damos. Quanta cobrança! De todos os lados, inclusive e infelizmente, de nós mesmas. E depois de tanto, chegamos numa entrevista de emprego (tentando melhorar, mudar, o que seja) e nos perguntam: "Você tem filhos?" E não, eles não perguntam isso a um homem. Não importa sua qualificação, sua experiência, sua inteligência, precisam saber se você tem filhos ou pretende ter. Afinal, quatro ou seis meses em casa de licença maternidade é demais para eles. Pobres criaturas que nasceram do nada e nunca precisaram de uma mulher.

      Dar conta da casa, dos filhos, continuar os estudos... Adoecer? Impossível. Não porquê sou de ferro, mas porque não tenho tempo e nem chance para isso. As demandas me atropelam. Não sou super heroína. Quem dera eu fosse uma super heroína. Num mundo em que sou super poderosa não preciso me culpar por dar tela para o meu filho enquanto termino de preparar o jantar. Num mundo perfeito, não preciso me culpar por dar miojo a minha família quando estou exausta demais. Num mundo em que sou super heroína não preciso me culpar por dormir na metade da atividade da faculdade porque estava cansada demais. Num mundo perfeito, não preciso me culpar por usar meus dois minutos de banho para chorar escondido da família, afinal, nesse mundo não preciso parecer forte e intocável, eu sou.

     E quando a família é apenas meu filho e eu, parecer forte é mais que uma necessidade. Longe de qualquer rede de apoio e tentando não surtar com o medo de deixar minha criança longe de mim enquanto trabalho. Enfim, o que é o mundo? Difícil confiar em alguém hoje. Basta um clique nas redes para entender a minha preocupação. Violência de todos os tipos e a todo o momento. Não sei como ainda me surpreendo, o mal está escancarado a cada clique e eu só quero ver o meu filho crescer seguro, saudável e feliz. É querer demais? Sem apoio, com insegurança por causa desse mundo ruim e ao mesmo tempo tentando parecer forte e inabalável por ele. Mas não sou inabalável. Não sou uma super heroína.

    Por falar em violência, já estamos cansadas de ver e ouvir histórias sobre nossos corpos serem violentados, desrespeitados. Palavras que cortam o coração e adoecem a mente são violência. Manipulação, a busca pelo controle de nossos corpos e nossas vidas. Não temos liberdade. A insegurança e o medo são enormes. Depois de palavras cortantes, temos atitudes que sangram - literalmente! Mesmo depois de tanto desgaste, tentando fazer o outro entender, eles não aprendem. Continuaremos, porque não tem outro caminho. Estamos cansadas de violência e controle. Nossos corpos. São nossos corpos e não merecem tanto e nenhum desrespeito. Não querem escutar o "não". Fingem não escutar o "não". "Ah, olha o sorrisinho, ela quer sim…", dizem e mais uma vez nos violentam. Estamos cansadas. Não merecemos. Seja física, psicológica, sexual, patrimonial, moral, estamos cansadas de violência.

     Somos donas de nós mesmas. Temos voz, temos vontades, desejos sexuais, desejos espirituais, temos sonhos e objetivos e também temos medo. Muito medo. Medo pela família. Medo por nós mesmas. Medo pelo mundo. No entanto, aqui estamos, lutando, seguindo, construindo o nosso mundo. Hoje temos voz e esperamos que não apenas nós mesmas nos escutemos. Nos escutem, nos entendam e nos respeitem. Por trás de cada carcaça, há uma mulher cansada, porém sonhadora e com o desejo de ir além. Não criem barreiras. Apenas nos escutem com verdade.

SUBSECRETARIA DA MULHER E DIREITOS HUMANOS - PREFEITURA MUNICIPAL DE MARIANA/MG

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