Jornal online feito pelas mulheres do Programa "Mariana D'Elas" da Secretaria Municipal de Assistência Social
OS DESAFIOS DA MULHER TRANS NO MERCADO DE TRABALHO

Liana Paula / Foto: Arquivo Pessoal
Ângela Maria
A transfobia tem funcionado como barreira para que as pessoas trans possam planejar suas carreiras e estabelecer projetos de vida. A evasão escolar antes da completude do ensino médio, soma aos fatores que levam à baixa qualificação profissional, ocasionando a discriminação para obtenção de vagas de nível superior. Para Liana Paula, mulher transgênero, pedagoga e ativista dos direitos humanos de pessoas LGBTQIA+, a sociedade é muito cruel com a comunidade e ainda mais com a mulher trans. Ela rotula e ”marca” a mulher transgênero com vários estereótipos.
Autora do livro ”Enfrentando a LGBTFOBIA na comunidade escolar”, Liana relata que, como tantas outras mulheres trans, ela ingressou muito tarde no mercado de trabalho. Assim como para tantas, para ela não foi nada fácil. Teve que enfrentar muitos obstáculos e desafios até conseguir um trabalho. A pedagoga conta que teve que provar o tempo todo que era capaz de ocupar espaços onde todos cabem e têm o direito.
Infelizmente, nem todos chegam a ocupar espaços no mercado de trabalho formal. De acordo com uma análise realizada pela Associação Nacional de Travestis e Transexuais (ANTRA), em 2020, estima-se que 90% das mulheres trans e travestis utilizam a prostituição como fonte primária de renda. Já em estudo feito pela plataforma TO.GATHER - empresa de tecnologia focada em análises de dados de diversidade - em parceria com o Fórum de Empresas e Direitos LGBTQIA +, em 2024, um dado do mercado formal chamou atenção. O levantamento, feito com 289 empresas, que abrangem cerca de 1,5 milhão de trabalhadores, indicou que as pessoas trans representam apenas 0,38% dos postos de trabalho.
Oposto a essa taxa de 90%, Liana afirma que com o importante apoio de sua família, bem como a fé em Deus, ela usou as barreiras da vida para se fortalecer e se manter firme e forte no enfrentamento à sociedade. Além disso, pode investir em seus estudos e qualificação, tendo em mente que cada passo dado por uma mulher transgênero é um ato de coragem e resistência.
Hoje, Liana é chefe do Departamento de Promoção à Diversidade de Gênero e Sexualidade da Secretaria Municipal de Assistência Social, onde atua na coordenação, planejamento e orientação da equipe para pensar em políticas públicas. O trabalho intersetorial, que junto com outras secretarias e movimentos sociais, visa trazer possibilidades que possam agregar e desenvolver o pertencimento e acesso da população LGBTQIA+ dentro do município marianense.
De acordo com ela, o departamento veio para possibilitar equidade dentro da nossa sociedade, pois a comunidade LGBT é uma população muito vulnerável. Além da Liana, a equipe é composta pela psicóloga Jacqueline Luciana e pelo coordenador de Direitos Humanos Saulo Camêllo, que juntos atuam no acolhimento e orientação da comunidade LGBTQIA+, oferecendo escuta qualificada e atendimento técnico. Um dos trabalhos que eles desenvolvem é o auxílio na retificação de nome e gênero, um dos passos mais importantes no pertencimento da pessoa trans perante a sociedade.
Os trabalhos do departamento de diversidade vão além. Há a articulação interinstitucional, onde fazem parcerias com órgãos públicos, universidades, cartórios, movimentos sociais e instituições do sistema de justiça. Existe ainda uma articulação - parceria - com o CAC para emissão da nova identidade e ações de inclusão social e profissional, como a inserção de mulheres trans no Programa Mariana D’Elas, por meio da atualização da lei 3.873 de 15 de abril de 2025. Ao longo do ano, o departamento ainda realizou oficinas, formações e ações educativas para servidores e comunidades, além de campanhas institucionais, seminários e eventos, que tem o objetivo de fortalecer a conscientização sobre inclusão, respeito e combate a todas as formas de discriminação.
Liana Paula chama atenção para a importância dessa representatividade, de como abrem portas para outras mulheres trans, dando voz a quem precisa e mostrando que há espaço para todas, que o que falta é a oportunidade. Muitas desistem no primeiro obstáculo, seja por falta de apoio, confiança ou até mesmo por medo de julgamentos. No entanto, de acordo com Liana, as barreiras sempre vão existir, porque infelizmente a sociedade é julgadora, taxativa, estereotipante e vê a mulher transgênero como “objeto”. Ter medo é compreensível. Portanto, é de suma importância que as mulheres trans procurem espaços que respeitem suas identidades e nomes sociais. Cada uma tem a sua capacidade, talento e direito de ocupar qualquer espaço, que vai muito além dessa identidade de gênero. A comunidade trans existe, cresce e luta diariamente por visibilidade, respeito e inclusão. Jamais devem permitir que o preconceito silencie os corpos, mentes, sonhos e desejos, pois há lugar para todos.
